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segunda-feira, 19 de junho de 2017

“VÔ MATÁ ESSE BUGRE”: OS CONFLITOS ENTRE OS XOKLENG E OS COLONOS NO ALTO VALE DO ITAJAÍ (Primeira metade do século XX).

“VÔ MATÁ ESSE BUGRE”: OS CONFLITOS ENTRE OS XOKLENG E OS COLONOS NO ALTO VALE DO ITAJAÍ (Primeira metade do século XX).

                                                      Martinho bugreiro e seu grupo.

Os confrontos entre os colonos de origem europeia e os grupos Xokleng que viviam na Serra e no Planalto, na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX, são a face mais dramática e violenta, e surpreendentemente menos estudada, da colonização de Santa Catarina. A colonização, da perspectiva dos colonizadores, por outro lado, é um dos temas prediletos da historiografia catarinense, especialmente da historiografia de corte mais tradicional. O relativo desinteresse dos historiadores e antropólogos pelo lado indígena da colonização, e pelos conflitos entre os dois lados, não deriva, como poderíamos supor à primeira vista, da escassez de fontes.  Existe um conjunto de documentos nos arquivos públicos em todo o Estado com registros e relatórios oficiais sobre as populações indígenas e os confrontos com os colonizadores. Num outro registro, a memória local, preservada nas lembranças das pessoas mais velhas que viveram aqueles tempos, conserva um riquíssimo repertório de narrativas sobre as interações, violentas ou pacíficas, entre os dois lados. Dependendo dos usos que fazemos da memória, ela tanto pode ser uma fonte auxiliar, e de valor equivalente, dos documentos oficiais, quanto um contraponto às impressões deixadas pelos agentes públicos ligados à colonização (refiro-me aos registros dos inspetores, dos diretores de aldeamentos, os ofícios dos delegados e subdelegados de polícia, etc.).

Em 2009, conversando com antigos moradores de Petrolândia, no Alto Vale do Itajaí, em busca de informações sobre a colonização da região, ocorrida no começo do século XX, ouvimos narrativas sobre as relações dos colonos com os Xokleng (chamados por eles de “bugres”) que nos dão bem a ideia da tensão e da violência que cercavam o cotidiano daquelas pessoas. Eu estava ajudando Vivian com as entrevistas, e ouvia atento às passagens narradas pelos moradores mais velhos sobre os confrontos com os “bugres”. Vivian escrevia uma dissertação sobre a colonização de Petrolândia e uma das fontes eram as memórias dos moradores mais antigos. Pelo jeito calmo e atencioso, e os lindos olhos verdes que inspiram confiança, ela conseguia deixar as pessoas à vontade para responder as perguntas. A conversa corria solta e as histórias iam espontaneamente aparecendo, apesar do gravador ligado.

Um dos entrevistados, que hoje mora no centro de Petrolândia, nos contou, num boteco de beira de estrada, sobre um episódio ocorrido na localidade de Rio Engano, em Angelina, que ouvira de sua mãe (Com 80 anos, o senhor fumava e bebia regularmente naquele boteco). “Era um sábado à tarde”, disse o nosso narrador, “e saiu um bugre de uns 15 ou 16 anos do mato, ele estava pelado e sentou numa pedra perto uns 400 metros” das casas dos colonos. “As pessoas que moravam ali uns ficaram com medo, outros não, nesse meio tempo tinha um atrevido e disse pro outro: vô matá esse bugre (...)”. Sem mais, “o rapaz pegou um winchester e atirou no bugre”. “A mamãe disse que eles ficaram com muito medo e disseram isso vai dar coisa. Falaram que ia se arrepender daquele dia, mas não os bugres saíram rápido do mato e levaram o bugre morto nas costas de volta pro mato”.

O assassinato do menino Xokleng, que deve ter ocorrido na década de 1920, foi contado com tanta naturalidade como se o alvo do disparo do winchester fosse uma capivara ou um desses javalis que devoram atualmente as plantações de milho na região. Ficamos imóveis, nos entreolhamos, e o senhor continuou tranquilamente sua narrativa como se aquilo não fosse nada, como se o menino abatido não fosse um ser humano! Não só isso. Aquele senhor tranquilo, educado e humilde, não manifestava qualquer tipo de julgamento, desconforto ou sentimento sobre a morte do menino. Era aquilo e pronto. A espontaneidade com que o sujeito pegou a arma para atirar no menino era a mesma, setenta anos depois, da do senhor que nos contava a história. Estávamos ali, petrificados, diante da alteridade do passado, em toda a sua estranheza, personificada naquele senhor.

A preocupação dos colonos com a morte do menino era somente em relação a uma possível contraofensiva dos “bugres”. Nada mais. E não era para menos. Quatorze dias depois do ocorrido, os parentes voltaram para se vingar. Os moradores das casas próximas haviam saído. “Somente em uma das casas”, contou-nos o nosso narrador, “ficaram duas crianças que eram deficientes, que não conversavam, não andavam e tinham mais problemas. E os bugres vieram e mataram os inocentes. Não sei como eles sabiam que querosene dava fogo, mas pegaram os galões e colocaram nas casas e (ateavam) fogo. Queimou as casas, as crianças tudo. Fizeram isso dali e o que matou não tava”.

Temerosos de novos ataques, as famílias se reuniram e contrataram os serviços do famoso Martinho Bugreiro (foto ao lado), que morava provavelmente na localidade de Serro Negro, em Ituporanga. Segundo o nosso narrador: “as famílias ficaram com medo e acharam que eles iam matar todo mundo. O Martinho Bugreiro foi atrás e os índios foram fugindo, Leoberto Leal, Imbuia e aqui em cima da Serra a matança foi grande. Nos criança muito curiosa, queria saber como ele matava. Disse que de noite, sei lá, diz que esse Martinho Bugreiro era que nem cachorro sentia o cheiro, e dizia eles estão em tal lugar. Chegaram perto e ele disse tão dançando, fazendo baile vamos esperar até eles dormir. Tinha um cachorro bem magrinho que viu eles e ficava latindo, diz que os bugres têm um sono muito forte, quando começa no sono é difícil acordar, isso é o que dizem (...). Deitaram em carreiro. O cachorrinho ainda latia e aquele foi o primeiro que passaram o facão, diz que ele entrava nas barracas e passava o facão e o sangue jorrava, não sobrou ninguém”.

Histórias como essa são bem conhecidas no Vale e Alto Vale do Itajaí. Ainda estão vivas nas memórias dos moradores mais velhos e são repassadas nos círculos familiares, não com orgulho, mas como algo que faz parte de suas vidas e das histórias locais. Perguntando com jeito, eles falam. A mesma narrativa, com ligeiras variações, nos foi contada por duas pessoas em entrevistas diferentes e em situações distintas.

O senhor que nos concedeu a entrevista no boteco vem de uma família de imigrantes alemães que chegou a Santa Catarina no final do século XIX. Sua família, como tantas outras, atravessou o mar em busca do “paraíso” prometido pela intensa propaganda promovida pelas companhias de imigração responsáveis por estimular a imigração para o Brasil, na segunda metade do século XIX. Vendia-se a imagem de um “paraíso” possível, abundante em terras de boa qualidade e com clima agradável. Os agentes de propaganda procuravam atrair gente com a promessa de lhes pagar a viagem oferecendo terras, semente, gado, material de construção, ferramentas e, também, o gozo de todos os direitos civis, isenção de impostos por cinco anos e liberdade de crença. Um folheto que circulava em Hamburgo em meados do século XIX nos dá o tom dessas propagandas e do que era oferecido ao trabalhador que se dispusesse a abandonar sua pátria e se deslocar para o Brasil:

“Iniciamos agora a viagem para terras brasileiras,
esteja conosco Senhor, e guie sim, faça Tu o nosso caminho,
esteja conosco no mar , com Tua mão paterna,
que chegaremos bem felizes na terra brasileira.
Deus falou para Abraão: abandona a tua terra,
e parte para outra que minha mão forte te indicar.”

Como Abraão, os imigrantes dirigiam-se a uma “terra prometida” guiados pela mão certeira de Deus através dos perigos do mar. A promessa era maior que as eventuais dificuldades e o Imperador os esperava generoso, protetor, de braços abertos a dividir a “terra brasileira”. Mas nem tudo acontecia conforme o que era prometido pela propaganda. Ao contrário do que se dizia ou se pensava, as terras não eram desabitadas e não estavam disponíveis. A nova Canaã já era habitada por grupos indígenas, os cananeus tropicais, que reagiriam à entrada dos colonos europeus. Os colonos, por sua vez, se armaram para dar combate aos “bugres” e defender as terras recém adquiridas.

Mas afinal, quem tinha razão naqueles sangrentos conflitos? (Se é que podemos nos perguntar isso, quase cem anos depois). Os colonos eram convidados do Imperador e traziam título de propriedade das terras recém-adquiridas. Os indígenas viviam há séculos na região e tinham a posse ancestral do território. Cada um, à sua maneira, poderia reivindicar a legítima permanência nas terras. Parece então que o problema estava com o governo brasileiro, que não reconhecia direitos dos povos indígenas sobre parcelas do território e construía a falsa ideia de um vazio demográfico a ser preenchidos pelos migrantes. Este desconhecimento ou negligência acarretaria em dramáticos conflitos entre os habitantes locais e os novos moradores, em disputas pela posse e usufruto das terras.

Ainda no século XIX, duas iniciativas, cada uma à sua maneira, encaminhavam uma solução para o problema, visto como uma ameaça ao sucesso da colonização. Em 1879, o governo provincial criava milícias armadas, comandadas por “bugreiros”, para dar fim aos indígenas, embora oficialmente a justificativa fosse contatá-los e conduzi-los a lugares seguros. As ações dos “bugreiros”, usando táticas de tocaia (como aquela empregada por Martinho Bugreiro à serviço das famílias de Rio Engano), eram violentas e poupavam, às vezes, apenas algumas mulheres e crianças. Os sobreviventes dos extermínios eram levados para Blumenau e Florianópolis, onde eram entregues à adoção, visando a civilização. Contrapondo-se à política oficial, os frades capuchinhos realizavam incursões nas matas com o objetivo de catequiza-los. Entre o final do século XIX e início do século XX, verifica-se uma mudança de postura em relação aos indígenas, embora em cidades como Blumenau, Lages, Orleans, Joinville e em muitas localidades do Alto Vale, os “bugreiros” ainda se encontrassem em plena atividade. Em 1906-7 foi fundada, em Florianópolis, com a autorização do governo estadual, a Liga Patriótica para a Catequese dos Silvícolas, que advogava um tratamento mais humano aos indígenas e o fim das matanças. Subjazia à fundação da Liga um ideal de inspiração positivista que defendia a integração do indígena à comunhão nacional, por meio da civilização. Em 1910 foi criado o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), também de inspiração positivista. A tese que presidia a criação do SPI era a da transitoriedade do índio, isto é, a possibilidade de progredir do estágio natural para a civilização. Isso seria possível graças à perfectibilidade, vista como a capacidade de melhorar, de se afastar da natureza, de ter o controle de si próprio e se ajustar à vida civilizada. A política adotada pelo SPI, neste sentido, visava transformá-los em trabalhadores nacionais.

Os tempos hoje são outros. Os “bugres” já não são mais caçados por “bugreiros”, à serviço dos colonos ou das Companhias de Colonização, ou abatidos a tiros de winchester. Antes, eram considerados “selvagens desalmados” e perigosos. Hoje, são inofensivos e levam uma vida bastante simples e pacata nas franjas de algumas cidades do planalto catarinense. O que não quer dizer que a situação tenha melhorado. As populações foram dramaticamente reduzidas e invisibilizadas. Vivem atualmente em refúgios, nas reservas indígenas e nas margens das cidades e, geralmente, são vistos com desconfiança pelas populações locais, que os taxam de sujos, ladrões e preguiçosos, que vivem às custas do governo.

                                                  Meninas Xokleng - Santa Catarina.

A lembrança da presença dos grupos indígenas na região se resume hoje a uma vaga e nebulosa toponímia (Ribeirão dos Bugres, Rio dos Bugres), que sobrevive silenciosamente nos cantos e sombras do “Vale Europeu”. Alguns nomes de cidades construídas pelos imigrantes, marcadas noutros tempos pelos intensos conflitos, conservam curiosamente a denominação indígena, como é o caso de Ibirama (“Terra da Fartura”), de Ituporanga (“Salto Grande”) e de Perimbó (“Buraco”), antigo nome de Petrolândia.

O tiro certeiro do winchester ainda ecoa no Alto vale.


Dos poucos estudos disponíveis sobre o tema em Santa Catarina, recomendo, além dos estudos do antropólogo Sílvio Coelho dos Santos, os livros “O Vapor e o Botoque”, da historiadora Luisa Tombini Wittmann, e o livro “Armas, Pólvora e Chumbo”, do historiador Almir Antonio de Souza.

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