Pin it

domingo, 31 de janeiro de 2016

O GUARANI INFANTIL E IMPREVIDENTE - PARTE II: As narrativas da conquista da América (Rio da Prata) como contraponto aos estereótipos jesuítico-coloniais.

O GUARANI INFANTIL E IMPREVIDENTE - PARTE II: As narrativas da conquista da América (Rio da Prata) como contraponto aos estereótipos jesuítico-coloniais.



A imagem do índio indolente, preguiçoso e imprevidente, que vimos no post anterior, emerge num contexto histórico marcado pela presença dos missionários e pelo estabelecimento de reduções nos territórios indígenas.  Já havia se passado quase um século desde a chegada dos primeiros espanhóis no Paraguai quando os jesuítas ali fundaram as primeiras reduções. Se compararmos os registros deixados pelos primeiros cronistas espanhóis, que mantiveram contato com os guarani na primeira metade do século XVI, com os relatos dos jesuítas, as diferenças saltam aos olhos. Entre os guarani descritos por Luis Ramírez em 1528 e os descritos pelo padre Antonio Sepp no final do século XVII e início do XVIII, vai uma grande diferença. Um retorno aos cronistas da conquista que fizeram os primeiros contatos com estes povos, auxiliado pelas descobertas arqueológicas e etnológicas do século XX, nos possibilita uma crítica ao velho estereótipo colonial do índio indolente e pusilânime. Conquista e colonização são momentos distintos da presença europeia no Novo Mundo. Os relatos da conquista são as primeiras impressões dos primeiros contatos entre os conquistadores e os grupos indígenas. Os cronistas que participaram das primeiras expedições à América do Sul fizeram contatos inéditos com os guarani e registraram flagrantes da vida desses povos antes da presença e da interferência mais efetiva dos europeus.

Inimigos implacáveis ou aliados valorosos, discípulos fieis ou adversários diabólicos, os indígenas, especialmente os guarani, só não foram expectadores passivos do avanço do colonialismo. Mas nem sempre prevaleceu essa visão. Por muito tempo sustentou-se a ideia de que os “dóceis” guarani se submeteram passivamente ao regime das reduções. Foram os cronistas jesuítas, de fins do século XVII e do século XVIII, e depois os divulgadores europeus, que fixaram essa imagem do guarani dócil, manso e passivo. Antonio Sepp e Cardiel (ver o post anterior) podem ser identificados como as matrizes daquilo que Ernesto Maeder chamou de “el mito de la pasividad guarani” (Pasividad Guarani? Turbulencias y defecciones en las misiones jesuiticas del Paraguay). Maeder contrapõe ao mito da docilidade as hostilidades e enfrentamentos que os guarani opuseram aos jesuítas, inclusive martirizando vários missionários. Para o autor a propalada docilidade guarani tem matriz jesuítica, mas a melhor caracterização do mito encontra-se na obra de Félix de Azara (Engenheiro militar e cronista espanhol que viveu na América do Sul entre 1781 e 1801).  

Além da incapacidade de lidar com o futuro, os guarani do padre Sepp eram de uma doçura e de uma resignação tocantes. Aceitavam tudo sem reclamar, inclusive os castigos físicos aplicados pelos padres. Ademais, eram “tão pueris, tão grandemente simplórios e de juízo tão curto, que os primeiros Padres, que converteram estes povos, duvidaram realmente se eram capazes de receber os Santos Sacramentos.” (Viagem às Missões Jesuíticas e trabalhos apostólicos).

Essa imagem de passividade e docilidade atribuída aos guarani vem sendo desmontada por alguns pesquisadores apoiados numa leitura menos seletiva das fontes jesuíticas e mais atenta dos cronistas da conquista. Refiro-me aos estudos de Branislawa Susnik, Louis Necker e Bartomeu Meliá, que levantaram os primeiros questionamentos e apontaram caminhos para a crítica dos estereótipos. Mais recentemente, apareceram os estudos de Maria Cristina dos Santos, Florência Roulet e Dayse Ripodas sobre a resistência guarani à conquista espanhola e jesuítica. Minha abordagem, embora distinta em alguns aspectos, é tributária desses estudos, especialmente da etno-história de Bartomeu Meliá.

Já esta suficientemente demonstrado que os guarani organizaram uma complexa sociedade guerreira e que a guerra ocupava um lugar central nas relações que mantinham com os povos vizinhos. Luis Ramírez, no primeiro relato europeu sobre os guarani do Paraguai, deixou uma nítida impressão dessa sociedade guerreira:

“Aqui con nosotros está outra generación que son nuestros amigos, los cuales se llaman guarenís y por outro nombre chandris. Estos andan derramados por esta tierra y pos otras muchas, como corsários, a causa de ser enemigos de todas estas otras naciones y de otras muchas que adelante diré. Son gente muy traidora, todo loque hacen es con traición. Estos señorean gran parte de esta Índia (...) Estos comen carne humana.” (Carta de Luís Ramírez a su padre desde el Brasil (1528).

Luis Ramírez era membro da tripulação da armada comandada por Sebastián Caboto. A armada, que viajava sob bandeira espanhola, desviou do destino original e acabou, em 1525, chegando ao Rio da Prata. Em carta endereçada ao pai, datada de julho de 1528, Luis Ramírez deixou um valioso testemunho:

“Aqui con nosotros está outra generación que son nuestros amigos, los cuales se llaman guarenís y por outro nombre chandris. Estos andan derramados por esta tierra y pos otras muchas, como corsários, a causa de ser enemigos de todas estas otras naciones y de otras muchas que adelante diré. Son gente muy traidora, todo loque hacen es con traición. Estos señorean gran parte de esta Índia (...) Estos comen carne humana.”

Outro relato de inestimável valor foi escrito pelo militar e conquistador bávaro Ulrico Schimdl, membro voluntário da expedição comercial comandada pelo adelantado Pedro de Mendoza ao Rio da Prata em 1535. O relato, escrito em alemão, e posteriormente publicado em espanhol como Viaje al Río de la Plata, aborda os anos que o autor passou no Novo Mundo, entre 1535 e 1553. A primeira edição foi lançada em 1567. A descrição que Schimdl fez dos guarani da Província de Lambaré deixa entrever toda uma estrutura defensiva composta de fossos e paliçadas, erigida por um povo que tinha na guerra uma das manifestações essenciais do seu modo de ser.



“También hemos hallado su lodalidad o asiento de estos Carios sobre un terreno alto sobre el rio Paraguay. También este asiento está hecho de dos palizadas de palos en derredor o en círculo y cada poste há sido tan grueso como un hombre en la grosura y por la mitad del cuerpo, y ha estado parada una palizada a doce pasos de la outra y los postes han estado enterrados bajo tierra por uma buena braza y sobre la tierra tan altos como hasta donde un hombre puede alcanzar con una tizona larga. También los Carios han tenido sus trincheras, también han hecho fosos a distancia de quince pasos de este muro o palizada tan hondos cuan altos três hombres. Dentro de éstos han clavado una Lanza de un palo duro y ésta há sido tan afilada y puntiaguda como una aguja (...).”

O guarani pintado por Ramirez e Ulrico Schimdl, belicoso, antropófago e traidor, em nada lembra a imagem do dócil selvagem fixada pelos jesuítas.

Os cronistas da primeira metade do século XVI observaram perplexos os rituais de antropofagia, mas foi o conquistador espanhol Cabeza de Vaca quem o detalhou com grande riqueza etnográfica, desde a captura do prisioneiro até a execução ritual. Na crônica que se convencionou chamar de “Comentários”, que registra as experiências do conquistador na sua segunda viagem à América em 1540, encontramos a seguinte descrição:


“Esta nação dos guaranis fala uma linguagem que é entendida por todas as outras castas da província e comem carne humana de todas as outras nações que têm por inimigas. Quando capturam um inimigo na guerra, trazem-no para seu povoado e fazem com ele grandes festas e regozijos, dançando e cantando, o que dura até que ele esteja gordo, no ponto de ser abatido. Porém, enquanto está cativo, dão a ele tudo o que quer comer e lhe entregam suas próprias mulheres ou filhas para que faça com elas os seus prazeres. São estas mesmas mulheres que se encarregam de tratá-lo e de ornamentá-lo com muitas plumas e muitos colares que fazem de ossos e de pedras brancas. Quando esta gordo, as festividades são ainda maiores. Os índios se reúnem e adereças três meninos de seis ou sete anos de idade e colocam-lhes nas mãos umas machadinhas de cobre. Chamam então um índio que é tido como o mais valente entre eles, colocam-lhe uma espada de madeira nas mãos, que chamam de macana, e o conduzem até uma praça onde o fazem dançar durante uma hora. Terminada a dança, dirige-se para o prisioneiro e começa a golpeá-lo pelos ombros, segurando o pau com as duas mãos. Depois bate-lhe pela espinha e em seguida dá seis golpes na cabeça (...) Somente depois de muito bater com aquela espada (...) é que consegue derrubar o prisioneiro e inimigo. Aí então chegam os meninos com as machadinhas e o maior deles, ou filho do principal, é o primeiro a golpeá-lo com a machadinha na cabeça até fazer correr o sangue (...) enquanto estão batendo, os índios que estão em volta gritam e incentivam para que sejam valentes (...) que se recordem que aquele que ali esta já matou sua gente. Quando terminam de matá-lo, aquele índio que o matou toma o seu nome, passando assim a chamar-se como sinal de valentia. Em seguida, as velhas pegam o corpo tombado, começam a despedaçá-lo e a cozinhá-lo em suas panelas. Depois repartem entre si, sendo considerados algo como muito bom de comer, e voltam às suas danças e cantos por mais alguns dias, como forma de regozijo” (Naufrágios e comentários).

Estas descrições contrastam violentamente com a imagem de docilidade e passividade frequentemente atribuída aos guarani. Eram notáveis guerreiros e viviam em permanente conflito com os povos que habitavam as fronteiras dos seus territórios. Schmidl os reputou entre todos os outros como os melhores guerreiros por terra e Ramirez constatou que eram “enemigos de todas estas otras naciones”.

Os guarani eram caçadores e coletores, mas eram também semeadores em constante movimentação no espaço em busca de melhores terras. Praticavam uma horticultura itinerante e exploravam habilmente as terras de florestas, derrubando e queimando árvores para plantar o milho, a mandioca, legumes e outras culturas. Essa particularidade, que os diferenciava das outras etnias que viviam basicamente da caça e da pesca, também foi destacada pelos primeiros cronistas. Ulrico Schmidl exaltou a “gracia divina” por terem encontrado entre os:
 “Carios o Guaraníes (...) trigo turco o maíz y mandiotín, batatas, mandioca-poropí, mandioca-pepirá, maní, bocaja y otros alimentos más, también pescado y carne, venados, puercos del monte, avestruces, ovejas índias, conejos, gallinas y gansos y otras salvajinas (...) También hay en divina abundancia la miedl de la cual se hace el vino; tiene también muchísimo algodón em el país.”


Esses dados permitem um bom contraponto com as teses de Cardiel e Pablo Hernández e com a “anedota” do boi e do arado contada por Alain Guillermou (Ver post anterior). Os guarani, imprevidentes e incapazes de semear e colher pensando no futuro, salvaram da fome com suas lavouras e reservas de alimento os numerosos exércitos espanhóis, e os abasteceu por quase trinta anos. A antropóloga esloveno-paraguaia Branislava Susnik, vale registrar, observou que este abastecimento contínuo de víveres nos primeiros trinta anos da conquista desintegrava a potencialidade econômica e abalava o antigo interesse pelo cultivo entre os guarani (El índio colonial del Paraguay - El Guarani colonial I. 1965). Talvez

Os relatos dos cronistas capturaram imagens das práticas culturais dos guarani antes do avanço da conquista e dos impactos da colonização sobre os territórios e o modo de vida dos povos indígenas. Antes dos franciscanos e dos jesuítas iniciarem seus trabalhos apostólicos, os espanhóis já percorriam e ocupavam estas terras há pelo menos oitenta anos. As guerras, as alianças militares, a exploração da mão-de-obra, as mestiçagens e as duras quedas demográficas alteraram significativamente a distribuição dos grupos indígenas no espaço e as suas formas de organização política. Os guarani do tempo do padre Sepp já não eram os mesmos do tempo de Luis Ramírez. Já haviam passado por diversas experiências com os espanhóis que, certamente, condicionaram as respostas que deram à chegada dos jesuítas. Daí a importância de conhecer este cenário histórico antes da entrada em cena dos missionários.

A jocosa “anedota” utilizada por Guilhermou para ilustrar o caráter dos guarani, devidamente localizada, abre-nos a possibilidade de rastrear as pistas de uma linha discursiva, de matriz jesuítica, que alcança os viajantes naturalistas e se consagra na historiografia e na literatura. O discurso colonial, cuja faceta mais perversa é a construção do colonizado como incapaz e degenerado, se perpetua nestes estereótipos que articulam uma forma sutil de dominação, muitas vezes camuflada de proteção.

O guarani capturado e embalsamado pelo discurso colonial, descrito como “flojo” e imprevidente, infantil e preguiçoso, que não pensa no dia seguinte, contrasta fortemente com os registros dos cronistas da primeira metade do século XVI sobre o guarani guerreiro e semeador. Vista de outra maneira, esta suposta ausência de uma visão de futuro talvez possa nos indicar não algum traço do “modo de ser”, mas os impactos do colonialismo sobre o “modo de ser” guarani. Neste sentido, as fontes coloniais das primeiras décadas da conquista, que flagraram o modo de vida guarani anterior à formação da sociedade colonial e à obra evangelizadora dos jesuítas, permitem um necessário contraponto às fontes coloniais e jesuíticas e a desconstrução de uma matriz discursiva colonial que fixou a imagem negativa e inferiorizada do guarani que se perpetuou na literatura e na historiografia.





Nenhum comentário:

Postar um comentário